Baldric Deneith

Paladino de Dol Arrah e Capitão dos Lâminas Marcadas

Description:

Humano, 29 anos, Bom e Leal, Paladino de Dol Arrah lvl 1.

Traços de Personalidade: Justo, bondoso, valente, cético, humilde, amargurado.

Gostos, Predileções e Características: Cavalos e montaria, história e treinamento de combate, alcoolismo, insônia.

Bio:

UM DRAGÃO VERMELHO SOBRE AS NUVENS DOURADAS

Parte I: Um Dia Amargo

Meus braços preguiçosamente se esticavam em direção as fustigadas botas quando os outros dois entraram na tenda improvisada, deixando a lúgrube luz do dia que recém ensaiava nascer entrar pela abertura.

- Olha, Kal, não é que ele está mesmo acordado!? – a voz feminina, porém firme da 1ª tenente proferiu.

- Aposto minhas bolas que ele nem deve ter dormido. – respondeu o robusto 2º tenente.

“Bom dia pra vocês também…” respondi; a cabeça ainda em outro lugar. Kalduur se aproximou relutante.

- Capitão?! Tudo bem por aí? – perguntou cutucando de leve minha têmpora.

Vathi apenas cruzou os braços e nos fitou numa postura entre preocupação e desdém, típica de sua natureza passivo-agressiva.

Percebi que minha expressão não abria muito espaço para dúvidas, e decidi que ele não realmente esperava uma resposta. Caminhei fingindo pressa em direção a bacia d’água nos fundos da tenda, e vestindo apenas as botas e os fundilhos da armadura gritei para que Pax preparasse meu cavalo. Feito isso, lavei meu rosto e me voltei a meus comandados.

“Tive uma noite difícil, como vocês perceberam; o importante agora é não deixar que nossos homens também o percebam. Esses cyrianos estão correndo de nós como se houvesse um exército de putas esperando por eles em casa, mas não podemos deixar que eles ataquem o porto-seguro de nossa Casa e saiam impunes. Por mais de um século Karrlakton é o lar Deneith, e deixar que os karrnathianos tomem a frente na retaliação não é uma opção. Precisamos mostrar ao mundo que Deneith ainda deve ser temida e respeitada.”

As palavras não convenciam nem sequer à mim, que dirá a meus dois companheiros de batalha que tão bem me conheciam. Eles sabiam muito bem o quão estúpida eu julgava toda aquela perseguição infundada. Apesar do rotundo e surpreendente ataque das forças cyrianas em Karrlaktan ter obtido certo sucesso, o exército inimigo não demorou a correr em direção ao sul, retornando para casa. Era apenas mais um dos muitos erros estratégicos e ataques passionais da Rainha Dannel, mas o suficiente para conjurar a ira dos karrnathianos, que armaram uma enorme perseguição aos rivais e obrigou a cúpula Deneith a tomar atitude parecida. A Casa havia sofrido muito com o traiçoeiro envolvimento de seus mercenários goblinóides no processo de independência de Darguun e com a definitiva entrada da Casa Tharashk e seus monstros no mercado de mercenários e sentinelas. Mesmo sabendo da minha enorme discordância com tudo aquilo os dois saíram da tenda em silêncio e rumaram organizar seus pelotões, e me deixando tranqüilo de que eles não deixariam que as tropas percebessem meu descontentamento ou abatimento.

Ambos Kalduur e Vathi, assim como o inquieto Pax, haviam sido meus companheiros por muitos anos na Academia Deneith, tendo eu sido destinado ao cargo de capitão do pelotão tão unicamente por ser portador da Marca do Sentinela, pois em excelência sempre me foi claro que todos os três me superavam por larga margem.

Kal era o exemplo perfeito do guerreiro espetacular. Atlético, forte, capacitado e obediente, era o soldado impecável; e apesar da carranca de poucos amigos típica de um ateu nascido em Thrane (ele deixara sua terra e se alistara na Casa Deneith após não aguentar mais servir às práticas desumanas do Cardeal Krozen), no fundo era o mais dócil e altruísta dos quatro, sempre mais preocupado com seus homens e companheiros do que consigo.

Vathi era intempestiva, porém genial. Sua técnica de combate e sua capacidade de absorver as possibilidades no campo de batalha e armar sempre a tática mais adequada eram motivo de orgulho para todos em Karrlaktan, cidade natal da vigorosa garota. Guerreira de Karrnath e Sentinela Deneith, Vathi era praticamente o epítome do comando militar, destinada à grandes glórias… se vivêssemos em outros tempos.

Já Pax era o homem mais tenaz que já conheci. Sensível e exímio com as palavras, o cyriano era um líder como poucos e um diplomata capaz de reverter situações dificílimas, o que havia poupado inúmeras vidas nesses nossos anos de campanha. Entretanto, embora sempre fiel a sua Casa, a sensibilidade do espírito de Pax jamais deixara que ele se desligasse totalmente de sua pátria, especialmente pela natureza artística e pensadora de Cyre. Isso nunca havia sido um empecilho para nossas missões, mas perseguir seu próprio povo enquanto o mesmo fugia em debandada, de forma covarde, havia tomado seu preço no espírito jovial de Pax.

Colocar a pesada armadura acobreada parecia sempre tomar mais tempo do que eu queria, principalmente numa manhã como aquela. Sofri calado por alguns minutos até que finalmente dei por terminada a tarefa e pude sair da tenda a procura de minha montaria.

Lá estava Pax, com seu olhar meio perdido, agora encilhando sua égua enquanto aguardava ao lado de meu cavalo. Eu sabia que ele me entenderia, sabia que para ele poderia contar tudo sobre a noite anterior, mas eu não conseguia, não tinha o mesmo tato dele para a conversa, embora meu peito pesasse desde aquele maldito sonho.

Eu nunca fora afeito a crendices e espiritualidade, muito menos a deixar sentimentos se sobressaírem a meus objetivos. Quando novo, na Academia era conhecido como Coração de Gelo pelos colegas, o que provavelmente me fez me aproximar tanto de Kalduur, mais velho e de poucos amigos.

Mas a noite passada havia sido atípica a qualquer outra das muitas horas insones da minha vida. Aquela perseguição estúpida já se estendia há três dias e duas noites e todo aquele sangue desonradamente, e inutilmente, derramado havia me deixado desgostoso e piorado imensamente meu sono.

Na maioria das vezes passava as noites recordando os horrores de batalhas como a de Cairn Hill, onde Kal perdera o olho esquerdo e o massacre de ambos Breland e Thrane deixara o gosto de derrota na boca de todos, principalmente da casa Deneith, que contava com mercenários nos dois lados da disputa, e ainda que jamais se confrontassem em campo de batalha, a situação deixava marcas fortes na moral de suas fileiras. Porém, dessa vez algo de origem bizarra e tom até certo ponto tétrico ocorreu comigo.

Não sabia dizer se chegara efetivamente a dormir, ou apenas dormitar em devaneios desconexos. Sei, tão somente, que muitas horas agonizantes se passaram numa névoa de pensamentos e suor gelado, até mesmo indícios de pânico. Embora vago tudo era estranhamente real, verídico, mortal. Um enorme clarão inundou minha cabeça e gelou minha espinha, ao que acordei atônito, para não mais dormir.

Algo terrível se apossara dos meus sonhos, e a força que o fizera era tão genuína a ponto de me abalar como batalha alguma fora capaz. Coração de Gelo uma ova! A verdade é que estava arrasado e isso estava claro nos meus olhos, pois Pax me olhava de canto de olho a todo o momento que julgava não ser percebido.

Só não cavalgávamos em total e absoluto silêncio pelo detalhe que seguíamos atrás de dois pelotões de cavalaria Deneith. Coordenados por Vathi e Kal, os Sentinelas seguiam a ritmo lento e sem pretensões, o que me dava grande prazer. Pessoalmente me sentia feliz em não participarmos do banho de sangue ao menos por hoje. Foi quando um de nossos batedores retornou: o exército de Cyre se aproximava da fronteira norte de seu reino e os karrnathianos pareciam decididos a persegui-los Cyre adentro, testando até quando os cyrianos se acovardariam da batalha e ceifando os retardatários sem clemência, ao ponto que tudo indicava que dentro de seu território Cyre não mais se recolheria, e sim armaria suas defesas e entraria em confronto com os rivais. Se não nos apressássemos Deneith poderia ficar de fora da batalha pela honra de Karrlaktan e isso seria um vexame para a já castigada imagem da Casa Sentinela.

A notícia me abateu como se um martelo atingisse meu peito. A discrepância daquela guerra beirava os limites da sanidade. Karrnath estava declaradamente falida, abatida, humilhada e enfraquecida após a ridícula operação contra os anões em Mror’Holds. Tendo isso em vista, a tão quão enfraquecida, sem verbas e desorientada rainha de Cyre vira uma oportunidade de exibir uma força de combate que todos sabiam não existir, engajando parte preciosa de suas tropas na fronteira oeste para atacar a cidade Deneith no reino de Karrnath, sem propósito algum que não provocar mortes inúteis, tendo em vista que apesar da fácil infiltração territorial, a dominância da cidade era completamente impossível, e armar um cerco dentro das fronteiras de Karrnath era suicídio mesmo com o enfraquecimento da armada karrnathiana.

Para piorar esse festival de excremento o Rei Kaius III, que recém tomara o poder e já conseguira grandes feitos reafirmando a paz com os anões e reatando boas relações com Thrane após décadas de desavença entre os antigos aliados, se mostrou muito pouco inclinado a conceder clemência a “impáfia cyriana” e parecia disposto a persegui-los até o total esgotamento de seu exército, e levando em consideração que mais da metade do mesmo era composto por mortos-vivos, isso poderia demorar muito mais do que se esperava inicialmente.

Com a alma em pedaços meus olhos cruzaram os de Pax pela primeira vez desde que havíamos montado em nossos cavalos. No fundo de sua íris castanha eu via muita dor e angústia, mas a voz do pajem soou firme e tranqüila.

- Eu estou com o senhor, capitão, não importa a situação. Sei que lhe dói ter de fazer isso, mas cada um nessa guerra teve inúmeras oportunidades de escolher seu destino, e apesar de tantos anos parece que a morte e a depredação continuam sendo as escolhas mais populares. Espero que saiba que independente do que acontecer eu lhe admiro muito, e sempre me espelhei no senhor.

Aquelas palavras me pegaram desprevenido, e as engoli em seco, tentando focar a cabeça no plano de ataque. Ouvir aquilo de Pax me fez muito bem, mas a vontade de lhe contar sobre o que eu passara na noite anterior só aumentava, por algum motivo eu sentia a necessidade de dizer a ele, como se ele precisasse saber… E ainda assim as palavras vinham a mente, mas jamais chegavam a boca. Essa guerra provavelmente estava me deixando louco, eu pensava na época. Hoje vejo que jamais havia estado tão lúcido. Quando o horizonte foi tomado por uma obscura névoa e uma luz fulgurante cegou todo meu pelotão por tempo suficiente para que o caos se instaurasse, meu ceticismo desabou e eu sabia que algo horrível havia acontecido. Algo que mudaria tudo e todos para sempre.

PARTE II: O Despertar

“A resposta ao dilema de Cyre após o dia do Lamento é um dos maiores indícios do senso de humanidade de Khorvaire. Ainda que alguns poucos tenham estendido a mão aos necessitados, a guerra havia endurecido o coração da população de tal forma que à maioria dos refugiados foi lhes dadas as costas. Muitos mais pereceram nos dias após o Lamento do que deveria.”

Abri os olhos completamente atordoado. O simples fato de ainda estar vivo já me parecia descabido. A luz do sol entrava pelas frestas da madeira de um casebre que parecia há muito abandonado. A luz dourada me lembrava das visões que eu tivera antes de cair inconsciente pela falta de sangue.

Levei alguns minutos até conseguir sentar-me na cama claramente improvisada na qual repousava. Por quanto tempo eu estivera ali era impossível calcular, mas com um olhar mais cuidadoso pude perceber que alguém fizera o possível para deixar o lugar mais habitável recentemente. Minhas coisas estavam espalhadas por todo lado, e como se as recolhesse com a mente fui relembrando das minhas últimas horas de consciência.

Seja lá o que acontecera com Cyre havia varrido boa parte da população, ao menos na fronteira norte, onde estávamos. As frentes de batalha cyrianas e de Karrnath haviam debandado descontroladas, deixando para trás qualquer formação e até mesmo a batalha em si. Estático no caminho da fuga, meu batalhão ficou totalmente desnorteado num primeiro instante. Pax, Vathi, Kal e eu fizemos o possível para evitar que nos dispersássemos, a idéia inicial era que pudéssemos retornar de forma coesa, e escoltássemos o máximo de feridos possíveis em segurança até Karrlaktan, o que provou-se uma tarefa ingrata.

Os ânimos estavam extremamente exaltados há dias, e uma catástrofe dessa magnitude só fez aumentar as suspeitas e o ódio entre os envolvidos. Poucas horas após o ocorrido, a confusão tornou-se frustração e os ânimos voltaram a níveis bélicos. Karrnathianos furiosos atacaram os fugitivos de Cyre sem dó, ao que os mesmos buscaram revidar como era possível enquanto buscavam esconderijo nas matas ou vilarejos próximos. O que se provou uma opção muito pouco melhor, já que muitos dos próprios civis de Karrnath descarregaram seu ódio sobre os inimigos em fuga.

A tentativa de liderar uma estratégia de fuga conjunta, fazendo o papel de atravessador entre os dois reinos, a fim de que todos encontrassem um lugar seguro onde as idéias pudessem ser postas no lugar, foi por água abaixo; e logo vi meus dois pelotões envolvidos no mesmo massacre e caos que tentava evitar.

Embora todos tivessem feito o máximo para se manterem fiéis as ordens dadas, quando Kal foi gravemente ferido por um ataque descoordenado de Karrnath, Vathi deslocou todos seus homens da rota em função de uma retaliação imediata e tão sem critérios quanto. Quando os homens viram Vathi, seu norte tático, perder as estribeiras, a merda estava feita. Havia perdido o controle e nada de bom poderia vir disso.

Onde estariam todos? Quanto tempo se passara? Foram tantas batalhas, fugas. Tudo parecia ter ocorrido em questão de horas, ainda que ao mesmo tempo parecessem meses.

- Você é um touro, achei que ficaria desacordado por dias ainda. – uma voz tranqüila e levemente rouca interrompeu minhas lembranças.

A luz do dia invadiu o cômodo quando um elfo baixo e de cabelos curtos e desgrenhados abriu a porta, num rangido. Aquele rosto cuidadoso, porém têmero reavivou ainda mais as minhas memórias. O dragão vermelho, aquele elfo estava com o dragão vermelho! Tinha certeza disso!

“Eu lembro de você”. Respondi. “Pax encontrou você…” Não consegui continuar; por um minuto a imagem de Pax sendo degolado por lâminas karrnathianas me trancou a garganta.

- Sim, devo minha vida a você e a seu amigo. – completou o elfo. – Mas, devo admitir que nenhum de nós estaria vivo agora se não fosse por minhas habilidades de cura, pois as suas não foram suficientes.

Por Eberron, o que ele estava dizendo?! Só conseguia me lembrar da bravura de Pax insistindo em ajudar o maltrapilho viajante contra um grupo de quase dez soldados de Karrnath, mesmo contra minha vontade, afinal estávamos esgotados por semanas de penúria e caos. Pax, seu idiota, se tivéssemos seguido nosso caminho você estaria vivo, comigo. O elfo jamais precisou da nossa ajuda, ele tinha o maldito dragão ao seu lado. Lembro claramente agora, quando engajamos no combate o dragão sobrevoava nossa cabeças, suas escamas vermelhas se anunciavam entre as douradas nuvens refletidas no sol do fim da tarde. Ele lutou conosco, ele me protegeu quando pulei sobre você e esse elfo esquisito, ele foi a última coisa q vi antes que meus ferimentos me levassem a inconsciência.

Tentei, mas conter minhas lágrimas se tornou impossível. Não sei dizer quanto tempo fiquei ali lamentando a escolha de Pax, mas o elfo se manteve plácido e quieto, apenas me olhando com candura. Quando eu parecia mais calmo ele finalmente se aproximou e falou:

- Imagino a dor que você está sentindo. A perda de uma vida é sempre algo lastimável. Ainda mais se tratando de alguém valoroso como seu amigo parecia ser. Sei que não é consolo, mas vocês salvaram minha vida, e farei desse sacrifício o mais válido possível, lhe garanto. E sei que você também.

“Mas… o dragão nos salvou, nós estávamos condenados se não fosse por ele.” Ele sorriu levemente e deu um leve toque em minhas costas, me incentivando a voltar a deitar.

- Você ainda não está totalmente recuperado, melhor deixar que você descanse. – ele levantou-se arrumando seus trajes de couro maltrapilhos. E completou – Infelizmente não pude carregar sua espada e escudo quando fugíamos, sua armadura por si só já dificultou bastante minha tarefa – riu-se. – Mas, no caminho consegui algumas armas de um viajante, estão na mochila embaixo da cama. – E por fim retirou-se.

Ainda atônito e entristecido dormir se provou uma tarefa difícil, como sempre. Buscando espairecer as idéias busquei a mochila coma mão direita e a puxei sobre mim. Dentro havia um martelo de boa qualidade, embora já bastante velho e um escudo de ferro já amarelado. Não combina muito com minha armadura acobreada, mas há de servir. Virei-o para analisar melhor as marcas de batalha quando um enorme e muito bem entalhado dragão vermelho montado em nuvens douradas saltou aos meus olhos.

“Espero que saiba que independente do que acontecer eu lhe admiro muito, e sempre me espelhei no senhor.”

Pax, meu bom Pax. Se ao menos eu tivesse lhe dito que eu sentia exatamente o mesmo.

PARTE III: Árduos Tempos

“Sou eu: Baldric”. Falei com calma, era sempre difícil saber se Kal estava acordado ou não, ultimamente.

- Eu sei, meu capitão. Dá pra sentir o teu cheiro de aguardente há metros de distância.

“Parece que o senso de humor não se foi com os seus olhos”.

- Claro que não! Perdi os olhos, não o pau!

Não pude evitar rir, afinal, eu estava mesmo embriagado, e me pareceu engraçado na hora.

“Bom, já que você está tão alegre essa noite acho que vou deixar pra lhe dar a notícia outro dia.”

Cinco anos. Cinco anos que Cyre se tornara pó.

Cinco anos que fizera uma promessa à Kalduur de curar os ferimentos que lhe tiraram a visão. Cinco anos que Pax se fora.

Cinco anos que eu despertara na luz de Dol Arrah, e absolutamente nada viera de bom desde então.

Dentro de menos de um ano o império de Galifar completaria um milênio… se ele ainda existisse.

- Não te faz de besta, capitão. Desembucha.

“Já disse pra você parar de me chamar assim, você sabe muito bem que a Casa me rebaixou.”

- Ó, coitadinho, desculpe se o cego feriu seus sentimentos! Fala logo ou cai fora, que já tá quase na hora do meu banho.

Kal não tinha a menor condição de pagar os custos de sua cura, mas ainda assim conseguia se dar ao luxo de que Kassila, uma prostituta local viesse lhe dar “banhos” ocasionais.

Tentei intervir por ele com a Casa Deneith quando finalmente consegui retornar a Karrlakton, porém fiquei marcado pelo fracasso em Cyre, e o fato de Dol Arrah ter me escolhido parece não ter melhorado muito as coisas.

Fui repassado aos Lâminas Marcadas, e Shirin D’Deneith, líder máximo do esquadrão, não parece ser muito fã do deus Dragão da Justa Guerra, e suas práticas na caça dos criminosos de guerra deixam isso bem claro. Logo, o pobre Kal foi largado às traças e eu me pergunto de tempos em tempos até que ponto fui realmente abençoado pela divindade.

“Então, estou de partida por um tempo, amigo. Recebi a notícia do falecimento de minha mãe, devo retornar pela manhã à Thaliost, para cuidar das formalidades e do sepultamento.”

- Porra, Baldric! Você ficou enrolando esse tempo todo pra me dizer isso? E eu aqui tirando com a sua cara! Cacete, me desculpa!

E mais uma vez a faceta sentimental de Kalduur aparecia. Sorri.

_ “Tudo bem, amigo, há muito a saúde dela não vinha bem. Pena não ter podido vela o suficiente nos últimos tempos, desde que meu velho se foi ela andava tão carente.”_

- Sim, e o porra louca do seu irmão nunca deu as caras! Aposto que nem no enterro ele irá.

Apenas consenti com a cabeça, o que me fez me sentir meio estúpido antes mesmo que terminasse o movimento. Afinal de contas, o homem era cego! Mas ele tinha certa razão, embora não visse meu irmão como um porra louca, como Kal definira, ele de fato havia deixado todos nós para trás.

Inicialmente ele desertara o exército de Aundair e se juntara a um grupo pacifista, protestando diante da violência e clamando pelo fim da guerra. No momento sentira orgulho do caçula, embora não o pudesse demonstrar; meu pai era um ufanista aundariano e ficara profundamente irritado com Benjen.

Porém, desde a assinatura do Tratado ele jamais retornara à Thaliost, me fazendo indagar se ele estaria ainda vivo, e deixando minha já viúva mãe bastante abatida.

“Veja pelo lado bom. Agora minhas responsabilidades financeiras com a família diminuirão. Creio que em breve poderei arcar com os custos da tua cura”.

- Sério, Baldric. Você segue o mesmo Coração Gelado dos tempos de Academia! Cai fora daqui que Kassila tá chegando, seu filho de uma… er… digo… é…

Não consigo evitar uma leve risada.

“Bom banho, Kal. Nos vemos em breve.”

- Mas que filho da puta!!!

Saio da agridoce conversa para uma noite fria e silenciosa em Karrlaktan. Há meses não era enviado a caça de algum “inimigo da paz” dos Cinco Reinos, que na verdade são doze. Então creio que não hão de me negar alguns dias de folga para velar a morte de minha mãe.

Já havia quase um ano desde a última vez que pusera meus pés em Thaliost, mas o local parecia sempre em alvoroço desde o Tratado. Em sua última carta, minha mãe parecia mais tranqüila quanto a sua segurança, e falava vagamente sobre mudanças na cidade. Porém, o que me espera em Thaliost é impossível de prever. As coisas lá não são muito claras desde que nasci, e não parece que isso vá mudar tão cedo.

“Eu estou com o senhor, capitão, não importa a situação.”

Eu sei bom Pax, eu sei que está.

PARTE IV: Rastros

Toquei meu cavalo com pressa através do raso riacho, podia ouvir que os outros seguiam logo atrás enquanto podia sentir minha embriaguez diminuir. Os soldados do Conde ficaram para trás, nenhum se atrevera a entrar no acampamento destruído.

A cena a nossa frente era de puro terror, nada havia sobrado de íntegro no lar daqueles cinquenta cyrianos que tentavam reconstruir suas vidas. A luz de minha tocha tremulava e fazia sombra quando o karrnathiano desceu de seu cavalo e se aproximou de um dos corpos carbonizados.

Nos olhos dele eu via uma certa ingenuidade atípica para um homem da idade dele. Pelo que contara de si a história lhe daria mais de trinta primaveras, sem dúvidas, entretanto tanto sua aparência quanto sua percepção da guerra conflitavam com sua idade. Mas, se ele fora mesmo um médico de combate n’A Guerra, teria sua valia.

Logo percebi que todos também seguiram seu exemplo e apenas eu e o meu compatriota nos mantivemos montados. O meio elfo chamado Hector era claramente o líder daquela empreitada, e o homem de mais confiança de Lars, atual comandante de Thaliost que nos enviara até ali.

Em tese seu nome deveria ter me indicado algo, mas não fui capaz de lembrar-me e nem encontrar registros dele em meus livros durante o caminho. Não deve ter tido grande participação nos eventos antigos. Ainda não sabia o que pensar dele, mas tanto o próprio quanto o governante pareciam procurar uma solução pacífica, o que me confortava.

Percebi que Anton, o médico, se afastara do corpo e agora olhava para a disposição dos objetos no chão, ao que desci de minha montaria e me dirigi para o corpo deixado por ele, para tirar minhas próprias conclusões.

- Seja lá que atacou esse acampamento, estava muito bem organizado. Avançou primeiro com uma cavalaria enquanto a infantaria bloqueou uma possível fuga. Em torno de vinte ou trinta homens. – disse Anton.

Muitos mais do que o necessário para colocar por terra aquele humilde campamento, pensei, e percebi pelas expressões que todos pensavam o mesmo.

“Essas pessoas não foram mortas aqui. Ataques de espada ou outras lâminas grandes fizeram o serviço, ao que arrastaram seus corpos para esses pontos e os queimaram, como se quisessem tentar parecer que fosse um acidente.” Afirmei, pelos claros traços de corpos arrastados e de cortes mortais nos cadáveres.

Foi então que o humilde e misterioso homem quebrou seu habitual silêncio, e pela primeira vez havia tristeza em sua voz.

- Seja lá quem fez isso não teve compaixão alguma, foi uma execução calculada e organizada, e a ordem me parece clara: ninguém deveria sobrar pra contar a história.

Desde que Assam se apresentara aquela fora a segunda vez que ouvira ele falar, embora dentro de minha mente ele houvesse se comunicado comigo. Ouvira boatos sobre pessoas com essa capacidade, mas jamais tivera o contato com alguém assim. Devo admitir que mesmo ficando bastante incomodado com isso a princípio, ele mantivera sempre um tom amigável e até certo ponto afável, até então, e ouvir sua voz transmitir essa dor me deixou um pouco balançado.

O momento de melancolia foi cortado pela rouca voz do meio-licantropo.

- Os rastros indicam que eles vieram do norte e seguiram para o sul. E posso estar enganado, mas ao que parece levaram reféns, o grupo que seguiu parece levemente maior que o que chegou aqui.

Caine era certamente o mais deslocado entre nós. Não era de se espantar, tendo em vista que seu povo fora perseguido por anos pela igreja da Chama Prateada, e agora ele estava a serviço de um governante de Thrane. Isso fazia ele me lembrar muito Kal em seus primeiros anos na Academia Deneith, e ambos inclusive compartilhavam o mesmo olhar rude, porém com algo de altruísta por trás.

- Há quanto tempo foi isso? – indagou Hector.

- Provavelmente um dia, no máximo dois. – respondeu.

- Você tem razão, houveram sim reféns. – interveio o investigador Medani, que até então caminhava em silêncio por todo acampamento – Lars falou de quantos refugiados acampados aqui?

- CInqüenta. – disse Hector.

- Hm, nada foi levado de valor. E olhando a contagem de roupas e utensílios, parece que faltam uns cinco refugiados, talvez mais, talvez menos.

“Acho que não há dúvidas que lidamos com um crime de ódio aqui.” Percebi as palavras escaparem de minha boca e Assam assentiu, dividindo comigo um olhar tristonho.

- O quê é aquilo?! – falou o investigador, ao que já caminhava em direção ao sul. Ao que o seguimos em ritmo mais lento.

Ao pegar de longe algo brilhante eu já senti algo familiar me passar a mente. Me aproximei e confirmei minhas suspeitas.

“Esse colar pertenceu a minha mãe.”

- Sua mãe vivia aqui?! – perguntou o Medani.

De todos daquela comitiva formada as pressas, Leon era o que eu menos confiava. Há poucas horas antes de aceitar aquele serviço eu o vira assassinar um garoto cyriano a sangue frio, somente por que o mesmo havia lhe furtado uma adaga. Lhe entreguei as autoridade, porém claramente nada foi feito.

Logo eu compreendera que os tempos em Thaliost eram de violência e boa parte da população louvava aquele tipo de atitude. A julgar pelo massacre nesse acampamento, parece que as coisas estavam escalando bem rápido. Ainda que contrariado, respondi a pergunta do investigador.

“Não, minha mãe faleceu de causas naturais há alguns dias. quando retornei para seu funeral soube que uma jovem refugiada cuidara dela em seus últimos dias. Infelizmente meus vizinho pareciam não gostar muito dela e a expulsaram de lá assim que possível. Há grandes chances dela ter retornado a esse acampamento, onde vivia e trabalhava anteriormente.”

- Bom, então é também provável que ela tenha sido uma das sequestradas. Veja! mais ali na frente, um anel! – disse ele caminhando rápido mais e mais pro sul. – E mais adianta parece ter algo também!

- Parece que alguém tentou nos deixar uma trilha. – concluiu Hector.

- Pfff, um cyriano com uma trilha de jóias? Tomara que eles estejam próximos… – ironizou Anton.

Me peguei olhando cada um daqueles cinco homens e tentando perceber o que aquele comentário havia despertado neles. Quem eram eles? O que os trouxera até ali? Era impossível saber com certeza. A única certeza agora era que havia um crime hediondo a ser desvendado e que eles eram a única companhia que teria para tal; seja para o bem ou para o mal.

BIOGRAFIA:

- Nascido em Thaliost, audarenho na época. Primogênito de um casal simpático, porém muito humilde, que vivia da curtição de couros.

- É um dos casos raros de Marcado pelo Dragão sem ligação consangüínea com a Casa, ao menos não sabida.

- Por conseqüência disso foi enviado logo jovem a Casa de Deneith, para explorar os poderes da Marca Sentinela, tendo convivido com seu irmão caçula Benjen apenas na infância.

- Foi treinado na Grande Academia Deneith em Karrlaktan, Karrnath, onde foi designado a servir aos Sentinelas com seus amigos Vathi, Kalduur e Pax.

- Lutou bravamente na batalha de Cairn Hill (987 y.k). Com apenas 17 anos na época, Baldric conheceu o gosto da dor logo cedo, nessa que foi uma das batalhas mais sangrentas e tristes da Última Guerra.

- Após esse e outros destaques foi desginado a capitanear dois pelotões dos Sentinelas, indicando Vathi e Kalduur como seus tenentes e Pax como seu segundo em comando.

- Estavam em Karrlaktan quando os exércitos da Rainha Dannel de Cyre rompera a neutralidade das casas atacando a cidade neutra, controlada pelos Deneith, o que gerou a fúria de Kaius III e da Casa Sentinela. (994 y.k.)

- Enviado com seu grupo na ferrenha perseguição aos exércitos de Cyre, estava na fronteira norte do reino com Karrnath quando Cyre misteriosamente foi destruído.

- Durante o caos da fuga e dos ataques aos refugiados passou dois meses tentando sobreviver com Pax, perdido de Vath, Kal e dos outros quase foi morto na tentativa de salvar um elfo em perigo e viu seu amigo Pax perder a vida diante de seus olhos.

- O próprio Baldric e o elfo sobreviveram tão somente por que durante o combate Dol Arrah, o deus dragão da Justa Guerra, faceta do Soberano, escolheu Baldric como seu campeão sagrado, despertando nele os poderes do dragão vermelho divino.

- O elfo era Daelor, druida das Eldeen Reaches que meses antes tivera o mesmo sonho que Baldric sobre O Lamento. O druida cuidou dos ferimentos de Baldric e pagou sua dívida salvando também a vida do agora paladino.

- Recuperado, finalmente retornou a Karrlaktan, onde soube que Kalduur havia perdido a visão em combate e Vathi fora designada a comandar outro batalhão de Sentinelas.

- Marcado como um fracasso na Última Batalha, passou a integrar os Lâminas Marcadas, grupo de mercenários Deneith que dedica seus dias atuais a caçar criminosos de guerra e desertores.

- A guerra e a participação em duas batalhas onde o horror imperara tomaram um preço em Baldric, que adquiriu problemas com a bebida, única forma de combater sua insônia.

- No momento retorna a Thaliost, para enterrar sua recém falecida mãe, onde espera rever o irmão há anos sumido.

Referências.

Forge of War (pg. 38-41, 66-67 e 92-94)

Eberron Player’s Guide (pg. 16-17, 21-22 e 128)

FICHA BÁSICA

Baldric Deneith, level 1
Human, Paladin
Human Power Selection: Bonus At-Will Power

FINAL ABILITY SCORES
Str 10, Con 12, Dex 10, Int 10, Wis 16, Cha 18.

STARTING ABILITY SCORES
Str 10, Con 12, Dex 10, Int 10, Wis 16, Cha 16.

AC: 20 Fort: 13 Reflex: 14 Will: 16
HP: 27 Surges: 11 Surge Value: 6

TRAINED SKILLS
History +5, Religion +5, Insight +8, Endurance +2, Diplomacy +9

UNTRAINED SKILLS
Acrobatics -4, Arcana, Bluff +4, Dungeoneering +3, Heal +3, Intimidate +4, Nature +3, Perception +3, Stealth -4, Streetwise +4, Thievery -4, Athletics -4

FEATS
Human: Mark of Sentinel
Level 1: Healing Hands

POWERS
Bonus At-Will Power: Virtuous Strike
Lay on Hands: Lay on Hands
Paladin at-will 1: Bolstering Strike
Paladin at-will 1: Ardent Strike
Paladin encounter 1: Shielding Smite
Paladin daily 1: Majestic Halo

ITEMS
Plate Armor, Warhammer, Heavy Shield, Horn, Backpack (empty), Bedroll, Belt Pouch (empty), Block, tackle, and winch, Chain (10 ft.), Cold-weather clothing, Chest (empty), Everburning Torch, Fine Clothing

Baldric Deneith

Aventuras em Eberron tim_langendorf